Veredas da Gardunha

O Fundão de outros tempos

quarta-feira, junho 01, 2005

Tempos de Outro Tempos

O Casamento

“Querem contrair o santo sacramento do Matrimónio André Esteves, solteiro de 23 anos, filho de Augusto Bernardo e de Amélia Leonor, e Maria da Anunciação Salvado Amaral, solteira de 19 anos, filha de José Nobre Amaral, falecido, e de Maria Angélica Salvado. Se alguém souber de algum impedimento que obste à válida e lícita recepção deste sacramento deve declará-lo, sob pena de cometer um pecado mortal.”

Fora assim que o senhor Prior ainda antes da habitual homilia, feita no inestético púlpito de madeira saído há pouco da oficina do António da Aninha e colocado junto à teia, iniciara a leitura dos vários proclamas. Quanto aos avisos da Câmara, como de costume, guardara-os para ler no final da Missa.

Mal ouviram o nome da primeira cachopa e logo num dos bancos começou um bichanar, de que se destacavam os comentários da ti’ Carlota do Canuto para a Nazaré Moleira.

– Olha são os “banhos” da filha da Angélica… O André leva uma mulher… Ela é a chave duma casa.

– Nem vossemecê sabe o que ali está, eu que tenho o meu chão lá pegado com a fazenda que elas trazem, é que vejo a mulher de trabalho que ela é!

André, livre da tropa devido ao pedido do oficial de quem o pai fora “impedido”, era um rapaz sem vícios e trabalhador como poucos. Durante todo o ano não perdia um dia dos seis destinados ao trabalho. Além da colha da fruta comprada na região, fazia ainda a apanha da laranja para os lados de Constância, onde habitualmente a família comprava, por vários anos, os laranjais. No Inverno acompanhava o pessoal no corte e carrejo das varas de castanho, actividade que derivava de outra profissão do pai que, para além de corujeiro (1), negociava ainda em madeira destinada à confecção de cabazes, comprando todos os anos vários soutos na Gardunha.

Quando necessário, era ainda com o André que a mãe podia contar para junguir os bois e preparar as terras para as sementeiras.

Único rapaz da família, nada de essencial lhe faltava. Por conta da herança, recebera já um chão nas proximidades do monte de S. Gens, onde no talhão mais próximo do povo levantara a casa. Pronta do trabalho de pedreiro, onde a colaboração dos amigos não faltou, não se sentiu tão à-vontade para o trabalho de carpinteiro. No entanto, pensando um pouco, de breve encontrou a solução:

– Os vizinhos das Beiradas, o Ti’ Narciso e o irmão Lourenço, carpinteiros de finos do melhor que há, todos os anos interrompem o trabalho na arte para colher a azeitona; se lhes propusesse merecer um dia de cada um por dois dias de trabalho, na colha?

Se bem o pensou, melhor o fez… Pés ao caminho e aí vai até à venda do Ti’ Januário, onde os ditos carpinteiros eram fregueses habituais.

Conversa p’ra cá conversa p’ra lá, arrumou-lhes:

– Ó ti’ Narciso tenho um contrato a propor-lhe…

Interrompendo-o, o Narciso atalhou logo:

– Já sei o que nos vais dizer: o teu pai tem para lá um montão de cabazes, e como este ano as maceiras estão fracas queres arranjar maneira de nos impingires alguns, não é?

– Não senhor, não é nada disso… é que já acabei o trabalho de pedreiro na minha barraca e agora falta a parte de carpintaria... Então passou-me pela cabeça propor-lhes um contrato: eu dava-lhes dois dias na colha da azeitona, lá nas Beiradas, por cada dia de trabalho de cada um de vossemecês?

– Ó rapaz, então ainda nem o renovo está todo semeado e já nos vens falar na colha d’azeitona?

Um tanto atrapalhado foi-lhes dizendo:

– É que eu quero casar p’rá Festa e tenho a casa ainda atrasada… Se me pudessem dar já uma ajuda era um grande favor!

– Cá por mim não tenho problemas! O trabalho que ando a fazer pode bem esperar; o Américo só precisa da casa daqui a três anos quando vier de todo da França!

E dirigindo-se ao irmão:

– Só se tu tiveres algum compromisso?

– P‘ra já, não. Acabei ontem o telhado da casa do Alfredo e t’rante uns biscatos que posso fazer à noite, também estou disponível!

– Pronto, rapaz! Já aqui tens dois artistas.

Selado o contrato com um aperto de mão e três “traçados”, lá se foi o André radiante da vida a imaginar o andamento dos trabalhos: a colocação da sonave, o lançamento dos caibros e, depois de soalhada, a fixação das pranchas para as taipas... Mas era sobretudo para a boa notícia a dar à conversada que o pensamento lhe fugia.

– Como a Anunciação irá ficar contente quando lhe disser que podemos casar pela Festa! – Aqui para nós, não menos contente terá ficado a mãe, sempre em consultas, receando que a sua Anunciação não fosse merecedora da flor de laranjeira no dia do casamento... Segundo consta, os namoros prolongados nem sempre auguram bons resultados… Daí ela pensar amiúde:

– Não é que eu desconfie do André; ele até tem dado provas de ser um rapaz respeitador; para mais quando me pediu licença para namorar a Anunciação vinha acompanhado do pai. Ainda me parece ouvi-lo:... O meu André quer casar com a sua filha, e eu venho pedir que lhe dê licença para namorar. Ele saberá honrar a família não faltando ao respeito a uma rapariga órfã de pai…

Mas esperta e conhecedora da vida, acabava por concluir:
– Isto de amores é como “a estopa ao pé do borralho: vem o Diabo e assopra-lhe”… nada de me fiar em palavreado...

No entanto, outras razões se sobrepunham e a deixavam inquieta: se por um lado a tranquilizava vê-la casada, por outro achava que era ainda muito nova... que lhe fazia falta... Enfim, que era muito cedo para a perder.

E os seus pensamentos continuavam:

– Se o André não andasse com esta zina toda de casar pela Festa… Que ao menos fosse p’la Santa Luzia já tínhamos até boa fruta p’ra boda…

Além do arrendamento, a Angélica – e por morte do pai, também a filha – era possuidora de alguns teres e haveres. Fora a fajarda da Senhora da Luz comprada ainda em vida do homem e herdara dos pais várias sortes: um chabarneco na Meia Légua, uma courela para os Arraiais e uma meia geira de terra no Alcambar, perto da Fonte da Fome, denominada “Chão dos Casais”. Nesta propriedade, o “ai-Jesus” do marido, que a trazia sempre num brinco, não se lhe enxergando uma ponta de erva, plantara ele o que de melhor havia em fruta: cerejeiras espanholas e enxertas, uma grande variedade de pereiras, como a virgulosa, a riscadinha, a ribeirinha, a colmar, a pigarça de Inverno, e de Verão, etc., e ainda macieiras de S. Tiago, bravo de Esmolfe, camoesas e malápios, cujo perfume, quando da fruta madura, bem se dava conta ao redor.

Como “a água é o sangue da terra”, a grande nascente ao cimo da quinta – uma mina que botava uma telha de água que permitia regar a pé toda a terra – era a razão da quantidade de pretensos meeiros que apareceram quando resolvera dá-la a tratar.

Que prazer para quem lá ia, ou apenas passava no caminho, ouvir o cantar da água caindo sobre o poial da presa...

– Então ti’ Angélica, sempre posso fazer conta de ficar com Chão dos Casais? – Perguntara-lhe o Zé Menino, de há muito interessado nele.

– Já tive muitos pretendentes, mas como te conheço d’há muito... és um rapaz humilde e trabalhador...

– Igual já lhe digo que pode achar! Ora quem lhe trate melhor... Venha de lá o primeiro!

– Já sabes as condições: é só para fazeres horta e alfobres, e nas segundas, quintas e sábados ires fazer a venda à praça.

– Pode estar descansada: aquilo que ficar acordado é aquilo que é feito. A minha palavra vale tanto como o preto no branco.

– Há anos que ando a pagar o lugar e poucas vezes lá vou. Depois da morte do meu, que Deus haja, perdi o gosto por esse trabalho. A Josefa Rata é que se tem consolado com ele! Passou a dispor de dois lugares sem lhe sair dinheiro do bolso. Também não faço nada demais, se tenho boas amigas ela é uma das melhores.

O marulhar da água caindo encaminhada pelos tornadouros até às hortas, os primeiros trinados dos roxinóis anunciando o cair da tarde e o cantar das quinteiras enquanto dirigiam a água para o renovo não permitiam que alguém passasse indiferente pelo velho caminho romano. Só o André, obcecado pela notícia que levava e com o coração mais acelerado que o passo do macho, passara alheio a tudo. Vislumbra, ainda que de longe, a conversada, era quanto bastava.

– Adeus ó cachopa! Olha, entretém-te por aí que eu vou só pôr as cerejas à estação e volto já… Tenho uma boa novidade p’ra te dar.

Mal o vira, a Anunciação deitou o sacho ao ombro e, saltando o cômoro, veio até junto do muro.

– Sobe ali à vereda.

– Agora não posso.

E embora atrasando um pouco mais o passo, foi continuando o caminho...

– É só um bocadinho, que a minha mãe não está cá!

– Já te disse que não posso.... Não vês que levo o macho carregado de cabazes e o barracão fecha às cinco? Se o meu pai, que vem aí atrás, me apanhava com outra carga, não me livrava de repetoca.

E arreando no macho, pois não tardava que o factor fechasse os despachos, foi descendo, agora mais apressado, o velho caminho da Levada.

Entrunfada e dando-lhe uma culapada, a Anunciação atirou com o sacho e virou-lhe as costas.

De regresso da estação, subindo então a vereda, deu de caras com a mãe da Anunciação, que já de volta do lameiro onde fora ceifar ferrã, se dirigia para a loja das vacas ajoujada com o molho da erva. Prendendo a arriata do macho à primeira árvore, apressou-se a deitar-lhe as mãos ao molho carregando-o ele.

– Então Deus nos dê boas tardes Ti’ Angélica!

– Vem com Deus, rapaz e bem-hajas pela ajuda! Mas não valia muito a pena incomodares-te… as minhas costas já estão tão calejadas! Desde que Deus levou o meu, há dois anos, que elas todos os dias carregam este peso em cima!...

– Então, mas enquanto há homens não se confessam mulheres!

– Lá isso é verdade! Mas para mais vens aí todo aperaltado!

– Eia! Também nem tanto! Vesti só uma camisa e umas calças lavadas; não gosto d’ir à vila com o fato que trago à cote!

– Então, já agora, acomoda também os animais enquanto eu dou aqui uma trincadela num naco de pão e queijo que trago no bolso… É que estou mesmo delida: andei toda a manhã só com um migalho de pão á’couxar água da presa na fajarda que tenho p’ra Senhora da Luz…

– E para que era agora tanta lida? Não podia primeiro descansar e comer alguma coisa? As vacas estão assim com tanta fome? Ainda nem as ouvi!

– Mas que queres? … É o meu feitio… Antes eu quero esperar para comer do que fazer esperar o vivo! Olha, sabes que mais? Ainda não se via o Setestrelo e já tinha um molho de ferrejo ceifado! Quando saio para qualquer lado tenho que deixar a manjedoura cheia e o resto do vivo acomodado. Mas também te digo, aqui ao redor não há uma junta mais asseada que esta!

E dando umas palmadas no lombo das vacas, ao mesmo tempo que lhes afagava o pelo luzidio:

– Eh “meninas”, ninguém tem ‘mas vaquinhas mai’ asseadas que a Angélica!

– Lá isso é verdade! São ‘ma lindeza – rematou o André.

– Mas, deixe que lhe diga: por dois dias que a gente cá anda não sei se vale a pena andarmos com tantas vidas!...

– Cala-te lá rapaz! Eu é que posso dizer isso… agora tu, na flor da idade?

– Então, os novos também abalam desta p’ra melhor! Mas não é a isso que me refiro; o que quero dizer é que se formos deitar contas a todo o nosso trabalho, o rendimento não paga metade do nosso esforço!

– Lá nisso tens razão, mas que havemos de fazer? Cá o encontramos, cá o havemos de deixar!

– Aí é que vossemecê se engana! Os que vierem depois de nós já não estão para se ralar assim.

– Quem te ouvir, rapaz, até julga que és um velho.

– Não sou velho mas já muita coisa passou por mim. Vá por aí abaixo e veja como estão as terras onde os velhos rendeiros morreram ou vieram p’ra vila e os novos emigraram. Se alguns patrões ainda mantêm as terras, a maior parte deles desfez-se delas. É um dó! Onde estão as hortas que até davam para abastecer a praça da Covilhã? E ainda lhe digo mais: não vale a pena pensar em arranjar pessoal da vila! Comer todos querem… mas trabalhar não é com eles. Ainda ontem tive essa experiência… Como estava a ameaçar chuva e queria acabar de plantar o bacêlo – faltavam-me aí meia dúzia de covas –, fui até à vila e encontrei o Tó d’a Amélia e o Mário Fusco, uns matulões, a segurar a parede da taberna da Pombalina… Pedi-lhes para me irem ajudar, prometendo-lhe pagar o dia por inteiro a qualquer hora que acabassem o trabalho, e sabe o que me responderam? Olharam um para o outro e foi assim:

– Não querias mais nada senão que andássemos de enxada nas mãos!

– Tudo isso é verdade, mas o melhor é mudarmos de conversa que esta “não chega a netos”.

– Mas voltando ao princípio: estava vossemecê a dizer-me que andou a regar a horta… Então a terra já estava assim tão seca? Ainda há poucos dias quando passei de caminho pró nosso chão da Senhora do Souto a vi a regar e já lhe deu hoje outra rega?

– Sabes, não foi tanto pela sede… a terra até estava fresca, mas como andei no sábado a engomar os feijoeiros, tinha que os assentar! …

– E foi sozinha fazer esse trabalho? A Lucrécia não a’judou?

– Ora ajudar! … Ajuda, ajuda, mas é a tirar o fumeiro das varas e alguma comida que sobeja… aquela rapariga é os meus pecados! Não perde o maldito costume de cada vez que cá vem levar para casa a mesnada.

A Anunciação, que já vinha próxima, ouvindo o desabafo da mãe largou logo:

– Se eu um dia apanho essa lostra, chocolateira e ladra a mexer no fumeiro ou no quer que seja! …

– Cale-se lá! Mais realengo nessa lingua s’tá bem? Eu ainda cá estou...

E voltando-se para o futuro genro, a meia voz:

– Não é por ser minha filha, mas levas uma mulher muito testa. É tal qual com’o pai, que Deus haja.

– Mas eu com a conversa nem ainda te procurei pelos teus!

– Lá vão menos mal… À minha mãe é que lhe apareceu uma botana no nariz e anda um pouco ralada por isso; mas o meu pai já falou com o Ti’ Porfírio e ele ámanhã vai lá p’ra lh’a queimar.

– Antes que me esqueça também lhe quero dizer que agora nas horas vagas também sou ganhão. O meu pai foi vender umas cabritas e como era mercado velho estavam lá os marchantes da Malveira – sempre com o olho em quem faz algum dinheirito… Mal viram abalar as cabras impingiram-lhe logo uma junta de vacas que, não desfazendo na sua, é bem bonita e bem dada para o trabalho. Como resolvi também pegar nela já me afeiçoei a esse trabalho. Assim, quando precisar que lhe lavre qualquer terra é só dizer. Vossemecê tem as alfaias todas, por isso é só junguir as vacas e pôr-me ao trabalho!

– Olha! Nem é tarde nem cedo, se pudesses cá vir já amanhã dava-me um grande jeito: voltavas-me a terra da baixa onde se cortou o milho maxio e ficava já pronta p’ra semear o nabal. Está bem estercadinha: tem lá vinte noites do rebanho do Ti’ Rasouro. Eu nem sabia que ele tinha uma pastoria tão boa! Julgava que era um rabastel como qualquer um dos que anda por aí, assim como o do António Saramago que já por várias vezes aí veio. Se queres que te diga não fiquei nada mal! Para além das noites do gado ainda me deu dez queijos: cinco à cabreira e outros tantos à ovelheira.

– Mas só o trabalho que me deu convencer o pastor a armar o bardo na terra! Queria levar o gado a dormir na loja, para se pôr logo ao fresco. Foi preciso ver-me a luzir na mão uma moeda de dez mil reis para amansar.


Pela manhã, ainda mal despontara a aurora, e a Angélica já a pé ouvira, vinda da loja, a voz do André:

É Bourisca! Estás estranha, nunca te tinhas sentido amarrada à canga pelas minhas mãos! E tu Marrafa, volta p’raqui! Ao eixo!

– Tem cuidado com a Marrafa! – disse de lá a Angélica – Ela gosta da reinação e quando sente a piaça no pescoço dá logo aos cornos!

– Já estou habituado, não se preocupe. Vai ao eixo tu, Bourisca.

E saindo com a junta para o coberto onde se encontravam as alfaias, pegou no cambão e depois de lhe enfiar o chavelho no tamoeiro e o engatar à canga ligou-lhe o arado dirigindo-se em seguida para a baixa para iniciar o trabalho.

– Vai ao rego, Bourisca! Vá, anda, não apertes... P’ra frente Marrafa, vai ao rego endireita!

– Como achas a terra? – Perguntou a Angélica que entretanto se aproximara.

– Está boa e bem estercada. O que está é um pouco apertada; bem se vê que andou cá bastante tempo o gado... O astro é que dá sinal de mudar… Deus queira que seja para abater um pouco este calor.
À uma hora, meio-dia solar, o sino da matriz tocava às Ave-marias. Interrompido o trabalho e tirando por momentos o chapéu da cabeça, o André desengatou o arado e amarrou a junta suada e atacada pelas moscas à sombra de uma figueira. Depois de desatar um molho de canões que dividiu pelos dois animais, dirigiu-se para casa onde o esperava, melhor que o jantar, a companhia da namorada.

Algumas das principais acções

Não obedecendo a qualquer ordem cronológica nem ao impacto que tiveram na altura, segue uma pequena lista das obras realizadas sob a administração do Dr. Celestino Monteiro, muitas delas permanecendo ainda bem à vista.

A lista é iniciada pela maior e mais importante das obras - grande até a nível nacional – pois foi um dos primeiros concelhos do país a poder gozar do grande benefício da electricidade – razão pela qual foram levantadas maiores dificuldades, visto não estar ainda concluído o plano geral para a electrificação do país.

Para além deste grande melhoramento outros se seguiram como: o abastecimento de água, a construção de escolas, com base no plano das comemorações da Independência - de que faz parte, na cidade, a Escola da Senhora da Conceição – e o calcetamento das ruas, acabando de vez em algumas aldeias, com o antigo costume de fazerem o estrume para as terras espalhando sobre as ruas grandes quantidades de mato. Uma decisão muito aplaudida foi a anulação do imposto de trabalho, decretado por uma das anteriores Comissões Administrativas, com a promessa de ser aplicado na própria terra, o que não aconteceu e contribuiu para um manifesto descontentamento dos povos.

Quanto à sede de concelho, sofreu a maior transformação com a nova fonte de energia electrifica, que permitiu a instalação e desenvolvimento de várias indústrias.

Mas uma das primeiras e importantes obras foi a edificação do Pelourinho, símbolo da autonomia municipal, cujo capitel jazia, juntamente com entulho, num subterrâneo do edifício da Câmara. A sua inauguração em 9 de Junho 1935, aniversário da constituição do Concelho, marcou uma “Data Histórica”.

O ajardinamento do Terreiro, com planta a encargo do mais importante paisagista português da época: Moreira da Silva.

Construção do edifício da Escola Masculina, agora designada Escola do Parque, (que mal passara do projecto das anteriores Comissões Administrativas da Câmara, pois em 1934 ainda fora feito um anúncio para o fornecimento de madeiras) arranjo de todo o espaço envolvente destinado aos recreios, ajardinamento, colocação de uma artística vedação e construção dos respectivos sanitários. Esta escola, embora aberta no ano escolar de 1935, foi inaugurada oficialmente por um membro do Governo em 21 de Abril de 1936.

Construção do Parque anexo – agora designado Parque das Tílias, também da autoria de Moreira da Silva, para onde fora transferido do Terreiro o obelisco e respectivo lago.

Construção da piscina, na altura com dimensões olímpicas, dispondo de uma torre de saltos com seis metros e início das obras do parque desportivo, tende já em vista a prática de patinagem, atletismo, ténis, futebol etc.

Inauguração e abertura ao público da Biblioteca Municipal também uma das primeiras do país, constituída, sobretudo, pelos numerosos volumes que integravam a biblioteca pessoal de Agostinho Nogueira e que ele oferecera à Câmara.

Conclusão das obras do primeiro grupo de casas do Bairro Económico situado atrás do actual hospital.

Construção de mais quatro casas, também para famílias carenciadas, situadas junto à escola do Parque.

Arranjo do Adro, com a plantação das árvores, calcetamento a paralelepípedos e delimitação com degraus de cantaria da parte pertença da igreja.

Inicio das obras para a continuação da Avenida e venda dos terrenos sobrantes destinados à respectiva urbanização. Segundo um dos projectos servia sobretudo para “reunião e passeio” já que o trânsito automóvel continuaria a ser feito pela Rua Conde de Idanha-a-Nova. Futuramente estava previsto terminar em Aldeia de Joanes, junto ao cipreste. Só a habitual burocracia não permitiu a sua conclusão.

Abertura e arranjo das ruas:
- Antónia Maria Pinto (actual Jornal do Fundão)
- Duarte Pacheco (actual 25 de Abril) e
- Desembargador José Vaz de Carvalho

Construção dos sanitários públicos.

Arranjo da Praça Velha com novo calcetamento e destruição de um mictório, monstro imundo, situado quase no centro da Praça.

Instalação de uma rede subterrânea para uma distribuição mais correcta das águas da adúa.

Construção de uma nova rede de esgotos e a obrigatoriedade de ligarem a ela as canalizações particulares ou fazerem os despejos nas respectivas aberturas, acabando de vez com as fossas e ainda com os despejos até ai feitos a céu aberto na adúa.

Exploração para captação de mais água e ampliação da rede de distribuição.

Calcetamento de todos os largos e arruamentos a paralelepípedos

Início das conversações com a família Maia para a construção da praça, ou mercado fechado.

Publicação de um novo código de posturas

Construção da cadeia, acabando com a situação degradante em que se encontravam os presos, a cumprir penas nos baixos dos Paços do Concelho.

O empenho movido para na concretização do projecto de arborização da Gardunha, na zona de Alcongosta e Castelo Novo, não há muito, destruída pelo fogo.

E para concluir, uma referência especial à realização das festas comemorativas do 2.º Centenário do Concelho que tiveram uma retumbância inexcedível.

Quanto às obras, muitas mais foram feitas, (algumas de boa traça foram destruídas e outras, como a continuação da Rua Adolfo Portela que passaria pelo lado esquerdo da Capela do Espírito Santo, acabando com a actual curva, tiveram tal oposição que não foi possível concretiza-las.)