Veredas da Gardunha

O Fundão de outros tempos

quinta-feira, novembro 25, 2004

Celestino Monteiro - Dezoito anos de Presidência da Câmara - O Homem

Se a falta de uma visão clara, nos impede de ver com nitidez e poder apreciar em toda a sua grandeza uma paisagem, a falta dessa visão, clara e límpida, quando se trata de observar o Homem na sua realidade concreta - sobretudo quando líder em qualquer plano da sociedade - contribui sempre para que se cometam grandes injustiças.

É pecha vulgar julgar o Homem pelas suas ideias, deixando na sombra muito de positivo ou negativo da sua obra. Como teríamos um mundo mais justo se os homens fôssem julgados pelas suas obras e não somente pelas suas ideias ou pelas posições de maior ou menor destaque, que ocupam na sociedade.

Um pouco influenciada pelos acontecimentos actuais do mundo e do país, que de alguma forma, nos obrigam a reflectir sobre esta realidade - sobrepôr o julgamento do homem ao julgamento da sua obra - dei por mim a fazer essa reflexão a nível de uma minúscula parcela - dez mil habitantes, neste grande aglomerado com mais de quatrocentos milhões, que é a Europa dos nossos dias - e cheguei às mesmas conclusões.

Ouvira um dia dizer a alguém responsável por um organismo internacional católico: "se não podemos mudar o mundo demos-lhe ao menos um empurrão"; foi justamente essa intensão - dar um pequeno safanão a esse mundo de fraca memória do passado, esperando que fique “para memória futura” que me motivou a vasculhar os modestos arquivos da família sobre a acção de Celestino Monteiro durante os quase vinte anos que presidiu à Câmara Municipal do Fundão.
É evidente que para um trabalho completo se impõe uma investigação a fundo aos arquivos municipais o que um dia, espero, se poderá vir a fazer; por agora limito-me apenas aos poucos dados de que disponho e ao que os meus verdes anos foram gravando durante esse tempo.
Se o sangue que corre nas veias pode perturbar por vezes a avaliação justa dos factos, no caso presente eles falam por si.

Indigitado para assumir a responsabilidade da Administração Pública como Presidente da Câmara, numa altura difícil da vida administrativa, o seu amor aliado a uma generosa dedicação pelo Fundão sobrepuseram-se à própria família. Nem os mais de dez anos como advogado, que lhe tinham já garantido uma brilhante carreira, nem tampouco o prestígio e as vantagens económicas que lhe adviriam com o ingresso, mais tarde, no Corpo Diplomático - para o que fôra chamado a Lisboa com a indicação de partir para Marrocos e aí dar início à carreira, foram suficientes para o demoverem da sua entrega ao “torrão”, (assim se costumava referir ao Fundão).

Mas ainda antes de pôr em evidência os grandes momentos dessa administração que de alguma forma o prestigiaram também, não quero deixar de referir outros factos que marcaram ainda a sua acção como seja a preocupação de atender aos mais necessitados dando a idosos e deficientes opotunidades de trabalho. Tanto nos serviços de limpeza, de vigilância de lugares públicos - o jardim o parque infantil e outros - ou no acompanhamento a funcionários, como seja nos trabalhos do veterinário municipal, eles estavam sempre em primeiro lugar. Esta atitude foi de tal forma criticada que a Câmara chegou a ser classificada publicamente, por um preterido válido, como: Câmara de inválidos!. O que agora a prestigiaria bastante!Também para o atendimento aos munícipes não tinha local nem hora certa. Nos Paços do Concelho, na rua ou em casa tanto fazia; era onde as pessoas o encontravam, O mesmo acontecendo quando algum membro do Governo se deslocava propositadamente de Lisboa; como as viagens eram demoradas e dispendiosas e havia que poupar tempo e dinheiro, as reuniões prolongavam-se fora de qualquer horário. Esta forma de exercer o poder interferia por vezes com a vida da própria família que não tinha horas para as refeições: eram quando o pai chegava.